Estilos de aprendizagem: modelos, ciência e como aplicar
Estilos de aprendizagem: conheça os modelos VAK, VARK e Kolb, o que a ciência diz sobre eles e como usar essas preferências para variar o ensino.
Estilos de aprendizagem: você provavelmente cresceu ouvindo que cada aluno aprende de um jeito diferente — visual, auditivo ou cinestésico. É uma ideia sedutora e virou clichê pedagógico. Mas a pesquisa mais rigorosa sobre o tema não encontrou prova de que ensinar conforme o estilo preferido melhora o desempenho de ninguém.
Em 2008, um grupo de psicólogos cognitivos liderado por Harold Pashler revisou décadas de estudos sobre o assunto a pedido da Association for Psychological Science. A conclusão foi direta: a maioria das pesquisas não usava o desenho experimental necessário para provar que adaptar o ensino ao “estilo” do aluno melhora resultado. Mesmo assim, a crença resiste na escola até hoje, e currículos e materiais didáticos ainda classificam alunos por estilos de aprendizagem sem essa base científica.
Uma revisão sistemática recente reuniu 37 estudos com mais de 15 mil educadores e encontrou que a maioria ainda acredita no modelo, apesar da falta de evidência. O mito persiste porque parece fazer sentido intuitivo — e porque virou produto comercial vendido para escolas e empresas.
O que são estilos de aprendizagem e de onde vem a ideia
A teoria propõe que cada pessoa tem um canal preferido de absorver informação — visual, auditivo, leitura/escrita ou cinestésico (o modelo VARK) — e que o ensino funciona melhor quando casado com esse canal. A ideia nasceu nos anos 1970 e 1980, num momento em que a psicologia da aprendizagem ainda buscava categorizar perfis individuais de forma simples.
O apelo é claro: professores querem respeitar a diversidade da turma, e alunos gostam de se ver descritos por um rótulo. O problema é que a ciência testou a “hipótese do encaixe” — ensinar visual para quem prefere visual, por exemplo — e não achou ganho de aprendizagem quando isso acontece.
Os principais modelos: VAK, VARK e Kolb
Três modelos dominam o debate. O VAK separa alunos em visual, auditivo e cinestésico. O VARK, criado por Neil Fleming, acrescenta leitura/escrita como quarto canal — e o próprio Fleming já afirmou publicamente que o questionário não é uma ferramenta de diagnóstico preciso.
Já o modelo de Kolb é diferente: fala de estilos de aprendizagem experiencial (divergente, assimilador, convergente, acomodador), ligados a como a pessoa processa experiência, não a um canal sensorial. Ele tem mais respaldo em contextos de aprendizagem adulta e aprendizagem experiencial, mas também não deve virar rótulo fixo.
O que a ciência realmente diz sobre estilos de aprendizagem
O consenso entre pesquisadores da educação é que preferências existem — você pode preferir gráficos a texto — mas preferência não é sinônimo de eficácia. Um estudo da Universidade de Indiana aplicou o questionário VARK em centenas de alunos e comparou quem estudou “no próprio estilo” com quem não estudou. Não houve diferença de nota entre os grupos.
Isso não significa que variar o formato de ensino seja inútil. Significa que rotular o aluno como “visual” ou “cinestésico” e restringir o ensino a esse canal é o que não tem base científica — e pode até limitar o repertório de quem aprende.
89%
dos educadores ainda acreditam no mito dos estilos de aprendizagem, mesmo sem evidência científica (revisão sistemática, Frontiers in Education, 2020)
Como usar preferências de aprendizagem sem cair no mito
Quando se fala em estilos de aprendizagem, o caminho seguro é trocar “estilo fixo” por “formato variado”. Em vez de perguntar “qual é o estilo desse aluno”, pergunte “que formatos esse conteúdo pede”.
Um conceito abstrato de física pede simulação visual. Um procedimento motor pede prática. A escolha vem do conteúdo, não do rótulo do aluno.
Isso conecta direto com metodologias ativas e com o uso de rubricas de avaliação que medem o que o aluno consegue fazer, não como ele diz que prefere aprender. O foco muda de identidade fixa para repertório flexível.
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Estratégias de ensino que funcionam para todos os estilos
Algumas práticas têm respaldo consistente independente de “estilo”: ensino explícito de conceitos, prática espaçada ao longo do tempo, testes frequentes de recuperação (retrieval practice) e feedback imediato. Essas estratégias funcionam para praticamente qualquer aluno, porque atuam sobre como a memória e a atenção funcionam — não sobre um canal sensorial específico.
Diversificar o formato — usar imagem, fala, texto e prática na mesma sequência didática — ajuda todo mundo, não só quem “prefere” aquele canal. É a diferença entre desenhar aula para um rótulo e desenhar aula para como o cérebro humano, de modo geral, retém informação. Isso dialoga com o trabalho de coordenação pedagógica na hora de montar plano de curso.
Diversificar sem rotular: o próximo passo
Estilos de aprendizagem viraram uma forma prática de falar sobre variar o ensino — só que embrulhada numa teoria que não resistiu ao teste científico. Você pode manter a intenção boa (respeitar a diversidade da turma) e trocar a ferramenta (parar de rotular, começar a diversificar formato).
Da próxima vez que planejar uma aula, pergunte o que o conteúdo exige — não o que o aluno “prefere”. Combine explicação verbal, recurso visual e prática guiada na mesma sequência. É mais trabalho no planejamento, mas é o que a evidência realmente sustenta. E se você quer medir o que cada aluno está aprendendo de verdade, um diagnóstico de perfil antes da trilha ajuda mais que qualquer rótulo de estilo.
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